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segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Mais de 100 mil órfãos de pátria


Mais de 100 mil órfãos da pátria, precocemente ceifados pela Covid-19. Talvez seja razoável falar em órfãos do governo, ou melhor, órfãos do atual governo. Cem mil que não representam apenas uma cifra, e sim nomes, rostos, vidas, lutas e sonhos interrompidos, famílias enlutadas. Olhares e sorrisos que se apagaram. Certo, a memória de quem espalhou a boa semente sobre a face da terra jamais se extingue. Mas a separação é sempre dolorida e clama ao céu. E grita sobretudo quando tem consciência que milhares dessas mortes poderiam ser evitadas.

Como explicar tamanha tragédia? Por que a pandemia encontrou solo fértil no Brasil? E por que a sensação de que o flagelo poderia, sim, ser menor? Por que tanto sofrimento e tantas lágrimas engolidas e silenciadas, de modo particular entre os extratos mais pobres da sociedade? O que faltou, ou então o que sobrou por que do governo? Sobrou negligência, indiferença, e mesmo deboche e escárnio; faltou um gesto, uma palavra, um plano nacional de combate a esse inimigo invisível e, por isso mesmo, mais contagioso e letal.

Sobraram erros e discórdias, faltaram sentimentos primários e primordiais. Aqueles que, em todo mundo, entrelaçam corações e almas, mentes e espíritos. Os equívocos tiveram início com a falaciosa contraposição entre saúde e economia. Ambas andam de mãos dadas e não podem ser separadas. Um país saudável robustece a economia, da mesma forma que uma economia responsável revigora a existência e a confiança. Mas o desleixo não parou por aí! O Brasil tem sido um dos países que menos testam, o que equivale a um controle menor sobre o contágio e os óbitos. E mesmo com tão poucos testes, o país ultrapassou a marca de 3 milhões de infectados, juntamente com os mais de 100 mil mortos. Órfãos de um governo ausente, os quais, por sua vez, deixaram milhares de famílias igualmente órfãs. “E daí!”...

Certamente a história haverá de fazer o inventário completo e julgar seja o mutismo ostensivo e desrespeitoso do supremo mandatário, seja o barulho frequente e estridente por ele emitido no palácio do Planalto. Barulho feito de ruídos que repercutiram perfidamente em termos mundiais. Ruído raivoso e difamatório das fake news, fabricadas e divulgadas pelo “gabinete do ódio” e com dinheiro público; espetáculo bizarro e insistente sobre a famigerada cloroquina, remédio nunca recomendado abertamente pela ciência médica; estardalhaço imperdoável no Ministério da Saúde onde, em plena evolução da pandemia, nada menos do que dois ministros foram sumariamente dispensados, pelo simples fato der não concordarem com a receita apresentada pelo capitão como panaceia a todos os males.

Os historiadores, além disso, jamais poderão poupar as repetidas insubordinações do presidente Bolsonaro, no sentido de desrespeitar o uso da máscara e de provocar seguidas aglomerações no “cercadinho do Planalto”. Isso para sequer falar de sua cobertura aos atentados contra o poder Judiciário, contra o Congresso Nacional e contra as instituições e mecanismos democráticos em seu conjunto, como também de seus obsessivos ataques aos meios de comunicação social, aos cientistas, artistas, professores, etc. E que dizer da tentativa de esconder os números referentes aos infectados e vítimas fatais do novo coronavírus!

Menos ainda tais historiadores fecharão os olhos a um governo centrado não tanto nas urgências e necessidades básicas da nação brasileira, mas na defesa do grupo familiar e da seita de amigos e fanáticos. Para finalizar, vale uma pergunta nada cômoda: por que os cofres públicos (numa palavra, os cidadãos que pagam seus impostos devidamente) devem arcar com os altos custos de manutenção de um presidente, de um senador ou de um deputado cujos mandatos servem mais para a autodefesa diante dos procuradores e tribunais, ou para garantir a própria impunidade, do que para o bem-estar da população?

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – Rio de Janeiro, 10 de agosto de 2020

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Pandemia como ponto de chegada e ponto de partida

Do ponto de vista da relação entre os seres humanos, de um lado, com a natureza e o meio ambiente, de outro, não será exagero considerar a pandemia do Covid-19 como um ponto de chegada e, ao mesmo tempo, um ponto de partida. Ponto de chegada em referência a um modo de pensar que considera o planeta terra como objeto rico e passivo de exploração, do qual, aparentemente, poder-se-ia extrair bens ilimitados. O pensamento do filósofo francês René Descartes, com a distinção clara e taxativa entre o sujeito pensante e os objetos ou coisas, teria contribuído poderosamente para essa visão dualista entre humanidade e natureza. O processo evolutivo marcado pelos avanços da ciência e do iluminismo, que conduz o Ocidente aos “tempos modernos”, é fortemente marcado por essa premissa. Depois, com o surgimento e o progresso da tecnologia, tal evolução ganha velocidade sem precedentes, culminando na Revolução Industrial. Com a final do século XX e início do XXI, chegamos à modernidade tardia (Anthony Giddens) ou pós-modernidade (François Lyotard).

Nas últimas décadas do século passado e as primeiras deste, porém, movimentos ambientalistas e estudiosos de várias áreas seguem insistindo na redescoberta que nosso planeta azul, longe de ser um mero objeto dependente e passivo diante da ação humana, representa em lugar disso um organismo vivo. Organismo vivo que, como toda planta, todo animal e todo ser humano, sofre constantemente um processo de metabolismo que o renova e transforma. Todo ser vivo, de fato, incorpora novos ingredientes, metaboliza e integra aquilo que o faz crescer e desenvolver-se, ao mesmo tempo que rejeita e expele o que lhe é nocivo. Até mesmo as águas, o oxigênio, o ar, a luz, e inclusive a matéria inorgânica são protagonistas desse processo de seleção permanente. “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, dizia Lavoisier.

Evidente que essa redescoberta da Terra como organismo vivo precede a tragédia da pandemia que hoje assola o mundo. Mas essa, em suas exigências e consequências, é também um ponto de partida que aguça nos seres humanos uma outra relação com o meio ambiente. Aprofunda-se a consciência de que o usufruto indiscriminado dos recursos naturais, bem como a exploração ao extremo da força humana de trabalho, representa um caminho equivocado e irreversível, um beco sem saída. O uso incorreto dos bens da natureza e o abuso nas relações trabalhistas, cedo ou tarde, confronta-se com barreiras intransponíveis. Enquanto alguns bens naturais podem ser recicláveis, outros são limitados. Daí a consciência de uma vida mais simples, sóbria, frugal e responsável. O organismo terrestre não se recria como fonte vital com a velocidade com a qual a econômica globalizada busca insaciavelmente lucro e acumulação do capital.

Mas não é só isso! Na exata medida em que olhamos para o planeta Terra não como um objeto a ser manipulado em função de interesses imediatos, e sim como um organismo vivo e vital, ele se torna um outro sujeito com o qual devemos nos relacionar. Relação nova e interativa, onde a natureza e o meio ambiente, juntamente com os seres humanos, passam a agir como verdadeiros protagonistas da biodiversidade. Semelhante modo de relacionamento nos obriga, por nossa vez, a olhar diferentemente para esse “outro sujeito”, respeitando sua alteridade única e irrepetível, como também a colocarmo-nos em seu lugar, com a consciência de suas fragilidades e de suas contribuições, de sua necessidade perene de renovar-se enquanto organismo vivo, para seguir oferecendo aos seres humanos o “leite” indispensável da sobrevivência.

Em conclusão, damo-nos conta que destruir as florestas, contaminar o ar e as águas, devastar o meio ambiente e desertificar o solo é impedir a reprodução da vida. E mais, é tornar impossível a continuidade não só de nossas futuras gerações, mas também outras espécies de fauna e flora, cuja ausência nos empobrece a todos. Nessa perspectiva, o novo coronavírus funciona como um balde de água fria no consumismo frenético no “viver bem”. Ou então uma espécie de ponto de partida em direção ao horizonte do “bem viver” justo, inclusivo, responsável e sustentável.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – Rio de Janeiro, 6 de agosto de 2020


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

TRABALHO, MIGRAÇÃO E DEFESA DO MEIO AMBIENTE

No decorrer do 5º aniversário da Carta Encíclica Laudato Si’, sobre o cuidado da casa comum, publicada em maio de 2015 pelo Papa Francisco, é lícito relacionar a temática da preservação do meio ambiente com a causa, hoje tão global quanto a economia, dos trabalhadores migrantes, refugiados e prófugos. Trata-se, de resto, de outra das grandes prioridades do atual pontificado. Desde sua eleição à cátedra de Pedro, Jorge Bergoglio sempre teve presente os números, os rostos, as histórias, as tragédias e as esperanças dos que se vêm obrigados a deixar a própria terra natal, aventurando-se em solo estranho pelo sonho de uma “pátria como terra que dá o pão”, na feliz expressão do bispo João B. Scalabrini, considerado “o pai e apóstolo dos migrantes”.

Na fusão dessas temáticas – trabalho, migração e meio ambiente – será ilustrativo o confronto entre duas célebres personalidades históricas, ambas de relevante influência na lenta e laboriosa evolução do pensamento ocidental. Duas figuras muito diferentes, seja do ponto de vista da origem, seja do ponto de vista do papel que exerceram na sociedade. Vale ter em conta que ambas se encontram separadas entre si por mais de 15 séculos. Em primeiro lugar, referimo-nos a Santo Agostinho, bispo de Hipona, um dos mais importantes teólogos e representante dos Padres da Igreja, nos séculos iniciais de nossa era. Passemos a palavra ao teólogo: “Quanto a ti, come e bebe tranquilamente, mas não pises os pastos, nem turves as águas (...). Não procuremos apenas ter uma boa consciência, mas, na medida em que permitirem nossas limitações, vigilantes sobre a fragilidade humana, empenhemo-nos em nada fazer que levante dúvidas para o irmão mais fraco. Não aconteça que, comendo ervas boas e bebendo águas límpidas, espezinhemos as pastagens de Deus e as ovelhas fracas comam a erva pisada e bebam a água turva” (Cfr. Sermões de Santo Agostinho, séc. IV).

Em segundo lugar, temos uma longa citação do filósofo Karl Marx. Este desenvolve a crítica da economia política no contexto febril da Revolução Industrial, na segunda metade do século XIX. Vejamos o que escreve o pensador alemão no segundo livro de O Capital: “Na agricultura moderna, bem como na indústria das cidades, o crescimento da produtividade e o rendimento superior do trabalho são comprados ao preço da destruição e do estancamento da força de trabalho. Além disso, cada progresso na agricultura capitalista é um progresso não somente da arte de explorar o trabalhador, mas também na arte de despojar o solo; cada progresso na arte de aumentar sua fertilidade por um tempo, um progresso na ruína de suas fontes duráveis de fertilidade. Quanto mais um país, Estados Unidos da América, por exemplo, se desenvolve com base na grande indústria, mais esse processo de destruição se cumpre rapidamente. A produção capitalista não desenvolve, pois, a técnica e a combinação do processo de produção social, senão esgotando ao mesmo tempo as duas fontes de onde jorra a riqueza: a terra e o trabalhador” (Cfr. MARX, Karl; citado por GORZ, André, in: A crise e o êxodo da sociedade salarial, entrevista concedida ao IHU Unisinos, cuja publicação figura como ano 3, nº 31, 2005).

Não obstante a larga distância histórica e a diferença de contexto e de visão de mundo, os dois personagens em questão, além do confronto evidente, dialogam quanto à forma de usar com responsabilidade os recursos que a natureza põe à nossa disposição. De fato, a expressão “não pises os pastos e não turves as águas”, de acordo com o primeiro, anda de mãos dadas com a crítica do segundo sobre “a arte de despojar o solo”. Se para Marx a produção capitalista tende a esgotar “as duas fontes de onde jorra a riqueza: a terra e o trabalhador”, para Agostinho a necessidade e a urgência de nutrir-se não pode estragar as fontes de alimento daqueles que virão depois. Estão em jogo, por um lado, o cuidado com o planeta, na preservação dos distintos ecossistemas e do meio ambiente; e, por outro lado, a herança que haveremos de deixar para as gerações futuras. Nada de permitir luxos excessivos em detrimento destas últimas!

Significativa é também a distância histórico-cultural que separa as duas figuras em relação à cultura e aos desafios do mundo contemporâneo. “A humanidade vive hoje uma fase nova da sua história, na qual profundas e rápidas transformações se estendem progressivamente a toda a terra”, lê-se na Constituição Pastoral Gaudium et Spes (1965), do Concílio Ecumênico Vaticano II (Cfr. GS, nº 4). O afã de um crescimento econômico como panaceia para todos os males e todas as crises impõe um sistema de produção e consumo cada vez mais acelerado. Semelhante velocidade atropela o ritmo das estações determinado pela natureza. Esta não dá conta de reciclar o ar, as águas e o solo com a rapidez que as políticas econômicas os utilizam e contaminam. Desejos despertam expectativas e estas se convertem em novas necessidades. O mercado da economia globalizada, impulsionado por tais imperativos e movido pelo motor do lucro e acumulação de capital, procura responder freneticamente a esses bens múltiplos e variados, sejam eles materiais ou imateriais. Disso resulta o descompasso entre a avidez e a pressa vertiginosa da exploração, por uma parte, e, por outra, o movimento milenar, cadenciado e sábio das leis naturais.

Daí as sistemáticas ameaças e agressões à vida em todas as formas (biodiversidade), seja no que diz respeito ao equilíbrio ecológico, seja na superexploração da força de trabalho. O resultado é duplamente negativo: leva as catástrofes ambientais a extremos sem precedentes, e desenraiza multidões de migrantes e refugiados climáticos que, sem rumo e sem pátria, erram pelas estradas do êxodo, do exílio e da diáspora em busca de uma digna e justa cidadania. Por isso, não basta “apenas ter uma boa consciência” – diz Santo Agostinho – não podemos deixar que “as ovelhas fracas comam a erva pisada e bebam a água turva”. No alerta de Marx quanto a um progresso técnico desvinculado de qualquer compensação social, não podemos ser cúmplices enquanto “esse processo de destruição se cumpre rapidamente”.

Emerge com força vital, vigorosa e veemente, a chamada “questão social”, que virá a ser a espinha dorsal da Doutrina Social da Igreja (DSI) desde seu documento inaugural, a Carta Encíclica Rerum Novarum (RN), publicada pelo então Papa Leão XIII, em maio de 1891. Vale lembrar que a temática desenvolvida pela RN – “sobre a condição dos operários” – coincide com o estudo de Friedrich Engels, companheiro de Karl Marx, publicado praticamente 50 anos antes, significativamente sobre a “situação da classe trabalhadora na Inglaterra” (1844). Como podemos concluir, apesar das tensões, conflitos e divergências, tanto no século IV quanto na segunda metade do século XIX, a preocupação da Igreja caminha lado a lado com os estudos e análises dos expoentes das ciências humanas. No horizonte está a defesa dos direitos e da dignidade humana, com uma clara opção pelos pobres, excluídos, migrantes e “descartáveis”.

Pe, Alfredo J, Gonçalves, cs,

Vice-presidente do SPM – São Paulo, 1º de agosto de 2020


segunda-feira, 6 de julho de 2020

RUÍDOS E MELODIA EM TEMPOS DE PANDEMIA


Desde Francisco de Assis e Teilhard de Chardin, cresce a consciência de que o universo como organismo vivo celebra uma grande sinfonia da criação. Tudo canta a beleza, a harmonia e a precisão de cada movimento. Cada criatura, orgânica ou inorgânica, representa um instrumento sonoro na gigantesca orquestra universal. Espaço e tempo formam, combinados, o templo profusamente iluminado dessa melodia infinita. A música da água e dos astros, do vento e da brisa, das flores e dos pássaros, são algumas entre as notas mais vivas do canto universal.
Mas esse organismo dinâmico não é a única testemunha de semelhante sinfonia. A natureza emite suas notas silenciosos, e por isso mesmo mais profundas, no íntimo de cada ser humano. Quando a quietude e o silêncio, a paz e a escuta descem como um véu sobre o espírito humano, a alma sente-se embalada por uma melodia absolutamente única, impossível de ser descrita com meras palavras. Coração e mente entram em sintonia com o ritmo do universo. A pessoa humana torna-se, então, uma nota primordial que se funde com a melodia da vida.
Os ruídos do cotidiano, entretanto, impedem deixar-se embalar por esse ritmo terno e silencioso. Taís ruídos, distintos e numerosos, são simultaneamente externos e internos. Às vezes somos nós que os procuramos, na tentativa de escapar ao medo que provoca o encontro a sós consigo mesmo. Impõem-se, nesse caso, as imagens da televisão, as mensagens das redes sociais, a voz do rádio, a conversa vã e vazia de conteúdo. Os ruídos externos, porém, persistem como uma atmosfera estridente de sons, luzes e apelos. Os rumores do marketing, da propaganda e da publicidade associam-se à pressão frenética e obsessiva da moda e do consumo.
Com a pandemia Covid-19, outros ruídos emergem e tomam conta do dia-a-dia. De um lado, os números de infectados e de mortos, as orientações sobre os cuidados e a limpeza sanitária, as hipóteses de infectologistas sobre curas e vacinas, os anúncios por vezes descabidos sobre remédios “milagrosos”... De outro lado, acertos e desacertos das autoridades sobre como comportar-se na quarentena e no isolamento, corrupção no uso de recursos destinados ao combate do coronavírus, fake news na divulgação dos dados e fatos, acompanhada de insistente politização da pandemia... E ainda, 24 horas sobre 24, informações repetidas e recicladas, como notícias que não param de martelar os ouvidos.
Como reencontrar a suavidade da quietude, do silêncio e da escuta? Como entrar em sintonia com a música, secreta e mágica, que rege o universo? Que fazer para encontrar uma hora, um minuto, um segundo que seja, de paz e harmonia? A resposta bifurca-se em dois caminhos: o primeiro é tentar esquecer tudo e ouvir a voz do coração e da alma, para alguns a voz da natureza ou de Deus. Mas aqui será fácil tropeçar numa armadilha comum. A exemplo de um rosto que se ama, quanto maior o esforço para esquecê-lo, tanto mais ele se faz presente.
A segunda tentativa é rezar os ruídos! Isso mesmo, rezar os próprios ruídos! Tomar consciência deles, identificá-los um a um, dar-lhes os nomes reais – com isso, abre-se a possibilidade de que ocorra uma transfiguração de cada ruído. A humildade e a coragem de tomá-lo pela mão e de encará-lo de frente pode converter o ruído em nota musical. Vale o mesmo com o medo ou o pecado. Ao segurar o touro pelas rédeas, sua fúria transforma-se em mansidão. Discernir, fixar e verbalizar aquilo que nos incomoda é uma forma de vencer sua força.
Deparamos então com a alquimia do silêncio, da escuta, da oração, do retiro, da meditação. Tal processo não modifica os ruídos ou problemas; modifica a maneira de encará-los. Dar nome aos fantasmas que, como sombras sinistras ameaçam a vida, é uma forma de jogar luz sobre eles, o que neutraliza seu peso real e sua energia nefasta. Esse é o segredo: no silêncio da oração, as roucas notas do ruído se transfiguram em melodia. Reencontramos a sintonia entre o espírito e a grande orquestra do universo. A alma volta a repousar no embalo do berço humano-divino.

Pe. Alfredo J, Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – São Paulo, 6 de julho de 2020



quinta-feira, 18 de junho de 2020

UM HÓSPEDE INQUIETANTE


A expressão foi usada pelo filósofo alemão Nietzsche: “O niilismo está às portas: de onde vem ele, o mais inquietante entre os hóspedes”? (Cfr. Fragmentos íntimos, 1885-87). Logo depois, foi retomada por outro filósofo alemão: “A ausência de pensamento é um hospede inquietante que se insinua por toda parte no mundo de hoje” (Cfr. Heidegger, 1959). Mais recentemente, o também filósofo italiano Umberto Galimberti, por sua vez, publicou um livro com o seguinte título: “O hóspede inquietante – o niilismo e os jovens”. De acordo com a Wikipédia, “niilismo é uma doutrina filosófica que atinge as mais variadas esferas do mundo contemporâneo (arte (literatura, ciências humanas, teorias sociais, ética e moral) cuja principal característica é uma visão cética radical em relação às interpretações da realidade, que aniquila valores e convicções. É a desvalorização e a morte do sentido”.
O negacionismo proclamado por alguns chefes de Estado, de alguma forma, mergulha suas raízes nesse processo cínico, cético e desconstrutivo, seja no que diz respeito aos valores e referências tradicionais, seja no que se refere ao trabalho da pesquisa científica. Neste caso, o ato de minar e desqualificar expressões culturais consolidadas ou descobertas inovadoras da ciência é uma maneira de ocultar a própria ignorância. Não possuindo argumentos válidos e racionais para um diálogo aberto e responsável, apelam para o bordão autoritário. O mesmo ocorre, por exemplo, com aquele marido que, incapaz de se contrapor às observações razoáveis da esposa, impõe-se pelo grito, pelo punho, quando não pela faca ou o revólver. Ou seja, a violência costuma ser a arma favorita de quem não dispõe de razão. Sem poder contar com uma autoridade natural, baseada no bom senso e num relacionamento digno, respeitoso e igualitário, predomina o autoritarismo. A falta de cérebro leva ao uso da força bruta.
Em tempos de pandemia e de quarentena, a postura fundamentada no niilismo negacionista tende a desmontar pela raiz qualquer planejamento sério para o combate do Covid-19. A batalha contra o vírus se converte em um cego tiroteio, onde cada um atira por conta própria e a esmo, com o risco de atingir outros soldados que deveriam estar do mesmo lado do front. Além disso, as opiniões pessoais, partidárias, políticas, corporativistas ou ideológicas acabam sobrepondo-se às orientações dos estudiosos especialistas em infectologia. Mais grave ainda! Autoridades que nunca frequentaram uma faculdade de medicina passam a ditar as regras e as medidas, tanto no sentido de fazer apologia de medicamentos sem eficácia assegurada, quanto no sentido de apontar de forma obsessiva e irresponsável um receituário com comprovados efeitos colaterais de risco. No Brasil do governo Bolsonaro, quando a tragédia registra o maior número de mortes, chega-se ao ponto de transformar o Ministério da Saúde em um verdadeiro quartel do Exército, onde os militares substituem a experiência dos técnicos.
Em semelhante cenário, quem é nosso “hóspede inquietante”? O coronavírus ou o governo de plantão? Talvez a perversa combinação de ambos! No momento de juntar as forças contra o “inimigo comum e invisível”, Jair Bolsonaro, seu clã familiar e seus fanáticos seguidores põem-se a brigar com as instituições democráticas: os poderes judiciário e legislativo, por um lado e, por outro, os governadores e prefeitos. Ademais, em lugar de corrigir declarações e atitudes indignas de um mandatário, e que depois são amplamente disseminadas pela mídia, termina por se indispor contra os representantes do jornal, do rádio, da televisão, etc. Em termos figurados, é como tentar apagar o fogo soprando na fumaça. Os meios de comunicação social, na verdade, são a caixa de ressonância do que vem da fonte, que são os fatos e imagens. E estes, por sua vez, há tempo refletem uma realidade de polarização. Se a polarização se revela como uma usina de intrigas, ódio, mentiras e ataques; se ela insiste em desconhecer o diálogo e parte sempre para o confronto; e se busca obsessivamente um inimigo para consolidar a própria natureza – o que mais pode transmitir a imprensa, seja ela falada, escrita ou televisionada!?...
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – Rio de Janeiro, 18 de junho de 2020

segunda-feira, 1 de junho de 2020

ESTAMOS TODOS NO MESMO BARCO?


Definitivamente não! Ou melhor, sim e não.  Se de um lado é verdade que habitamos todos o mesmo planeta Terra, de outro também é certo que uma minoria muita rica e poderosa tem condições infinitamente melhores para se defender. Defender-se de quê? Em primeiro lugar, da pandemia do Covid-19 que devasta o mundo inteiro e que pode matar mais de meio milhão de pessoas. Mas defender-se igualmente dos efeitos nefastos causados pela deterioração do meio ambiente, pela contaminação do mar, do ar e das águas, pelo aquecimento global, pelo ritmo alucinado de produção, consumo e descarte imposto pelo sistema capitalista.
No caso da pandemia do coronavírus, a constatação tem sido simples e imediata. Inicialmente, a doença começou a ser disseminada pelos que têm condições de viajar, muitos deles turistas ou técnicos especialistas das multinacionais. A sua letalidade, porém, verificou-se maior entre os pobres e os negros, as minorias étnicas e os imigrantes, com destaque para grande número de indocumentados “escondidos nos porões da sociedade” (p. ex., Massachussets, Califórnia e Flórida, USA, além de vários países da Europa). Embora o vírus chegue pelos aeroportos e cruzeiros, é nas favelas e periferias que esse “inimigo invisível” ceifa mais vidas. Conhecemos o caso da patroa que contraiu a doença e contagiou a empregada doméstica. Enquanto esta última veio a óbito, a outra sequer desenvolveu os sintomas. Ou seja, o nível de vida e a boa nutrição das classes altas não apenas confere uma armadura mais saudável contra os ataques do vírus, mas também lhes abre prontamente o acesso ao sistema de saúde e a um tratamento mais digno. Estamos todos no mesmo barco, mas em condições profundamente desiguais.
Vale o mesmo diante do vírus do lucro e da acumulação capitalista, dois motores que movem a economia globalizada. A ambição descontrolada pelo dinheiro e o poder – irmãos gêmeos que se protegem e fortalecem reciprocamente– há séculos vem destruindo os ecossistemas, em nível regional, bem como a natureza e o todo meio ambiente, em nível universal. A Carta Encíclica Laudato Si’, publicada em maio de 2015 pelo Papa Francisco consiste, ao mesmo tempo, em uma testemunha e uma denúncia dessa destruição irreversível. Os resultados se manifestam no fenômeno das catástrofes extremadas, tais como estiagens prolongadas e inundações, frio e calor cada vez mais acentuados, furacões e ciclones, e assim por diante.
Também neste caso, embora estejamos todos no mesmo barco, torna-se escandaloso e estridente o desequilíbrio entre pobres e ricos. Enquanto os primeiros representam as vítimas imediatas de cada catástrofe, perdendo seus entes queridos ou tendo que fugir da terra em que nasceram, os segundos apelam para uma série de mecanismos de proteção. O dinheiro e, através dele, a força e influência política os defendem. Têm condições de se refugiar nos “arquipélagos da riqueza”, pagando preços elevados. Daí o alerta do pontífice segundo o qual, além de preservar “nossa casa comum”, torna-se urgente distribuir de forma justa e equânime as riquezas produzidas pelo trabalho de todos. Basta com a “globalização da indiferença” – diz o Papa – fonte de enormes assimetrias sociais, e que “exclui, descarta e mata”.
Vale concluir com as palavras de Richard Melville Hall (nome artístico de Moby), conhecido mundialmente como o astro do rock e da música eletrônica: “Um dos aspectos mais frustrantes do que estamos vivendo como espécie é que todo o problema que enfrentamos é um problema que nós mesmos criamos. A receita para transformar nosso planeta em um paraíso é algo muito fácil: basta parar de usar petróleo e carvão, de derrubar as florestas tropicais, de usar animais como alimento e de gastar mais dinheiro em defesa do que em educação. Acho que podemos consertar tudo. Nós só decidimos não consertar. Espero que a pandemia nos faça ver que o ‘velho normal’ poderia ser até confortável, mas também era totalmente insustentável. A minha esperança é que tenhamos logo um ‘novo normal’” (Cfr. ESSINGER, Silvio, in: O DJ que não vai a boate e a raves, Jornal O Globo, 25/05/2020, segundo caderno, pág. 1).
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – Rio de Janeiro, 1º de junho de 2020

quarta-feira, 27 de maio de 2020

BOLSO NOSSO DE CADA DIA


Em termos figurados, o bolso, a balança e o espelho são os “órgãos” mais sensíveis do corpo humano. Determinam, respectivamente, o status social, as linhas da estética e o grau da beleza. No transcorrer lento e longo desta pandemia do Covid-19, os dias, semanas e meses se revelam aparentemente infinitos. De forma inadvertida, afloram preocupações inéditas com detalhes que, em outras circunstâncias, passariam despercebidos. Tornamo-nos todos um tanto quanto mais irritadiços e narcisistas, tanto nas relações com os outros quanto no cuidado conosco mesmos. Certas “picuinhas” ganham relevância desproporcionada.
Talvez seja por isso que o presidente Bolsonaro, atento às necessidades urgentes da seita que o idolatra, insiste em abrir os serviços de academias, cabeleireiros e salões de beleza. Atitude terrivelmente evangélica: “deixem que os mortos enterrem seus mortos” (Mt 8,22). Quanto aos vivos, têm que continuar a labuta. No ponto de vista bizarro do capitão e seu clã de fideístas, 70% da população deve ser infectada e alguns “velhinhos” devem mesmo morrer. E daí!? Lamento, que posso fazer!? Se isso tem que acontecer, que seja o quanto antes. O que importa é retomar de imediato a vida normal: abrir lojas e fábricas, sair às ruas, fazer compras, voltar a trabalhar. Afinal de contas, a roda da economia tem que girar, não pode ficar parada por mais tempo. O pessoal fechado em casa está com a geladeira vazia, os filhos não têm o que comer. Além disso, “o meu governo” não pode ser prejudicado (leia-se “a minha reeleição”).
Sobem de tom os ímpetos e impulsos repentinos do presidente. Acabam por tornar-se cada vez mais estridentes e obsessivos, contagiando os fiéis cegos e fanáticos. Os desejos ocultos do capitão, inconfessados e inconfessáveis, vestem-se de verde e amarelo, ganham as praças e as redes sociais. Transfiguram-se em necessidades urgentes do povo, para quem o Messias diz ter sido enviado (e eleito). Daí às manifestações agressivas contra os demais poderes – judiciário e legislativo – o passo é curto. Sinistro, perverso e perigoso. Pouco importa se o SUS entra em colapso, se os agonizantes disputam um leito numa fila dolorosa e macabra, se alguns sequer buscam os hospitais e terminam por morrer em casa, se os profissionais e agentes de saúde estão sobrecarregados, se os serviços funerários e os cemitérios exibem cenas apocalípticas e se o número de infectados e mortos segue em aumento progressivo – melhor sacrificar a vida de uns poucos milhares no altar sagrado que é o projeto da “nova política”.
Nova política que, de resto, nunca antes na história deste país se revelou tão velha, tão corrupta e tão patrimonialista. Está em jogo a blindagem judicial contra o impeachment e em favor de uma prole viciada e cada vez mais indisciplinada. Volta com força redobrada o famigerado toma-lá-dá-cá, no sentido de consolidar, nos bastidores e corredores do Congresso Nacional, o tal do Centrão. Na verdade, um arremedo reciclado, desajeitado e piorado da antiga prática que consiste em oferecer cargos, benesses e privilégios como moeda de troca por votos e apoio político. E com a mesma força redobrada volta igualmente a prepotência intervencionista, seja na relação com Ministérios, mesmo à revelia dos representantes das respectivas pastas, seja no controle da Polícia Federal, também à revelia no Ministro da Justiça.
Como se já não bastasse o flagelo do Covid-19, temos que suportar o vírus do negacionismo, do deboche, da avalanche de fake news e do autoritarismo. Do ponto de vista da geopolítica, bem como das relações com os agentes da economia mundial globalizada, o presidente Bolsonaro vem comprometendo o bolso nosso de cada dia. Não se trata apenas de um jogo de palavras. A confiança dos investidores nacionais e internacionais vai de ladeira abaixo, o que se reflete na fuga de dólares e perda de poder efetivo do real. Em meio à instabilidade política, crescem dúvidas e incertezas sobre o risco Brasil. Semelhante cenário traz sombras de insegurança sobre o trabalho, o emprego e a migração forçada. Felizmente, através de iniciativas populares e solidárias, emergem aqui e ali pequenas luzes de projeto de economia alternativa.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – Rio de Janeiro, 25 de maio de 2020