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terça-feira, 19 de setembro de 2017

Campanha pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico será lançada em Campina Grande nesta quinta (21)


Com o lema: “Direitos são para mulheres e homens, responsabilidades também!” será lançada em Campina Grande na próxima quinta-feira, 21 de setembro, a Campanha pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico, organizada na Paraíba pelo Grupo de Trabalho (GT) Mulheres e Agroecologia da Articulação do Semiárido Paraibano (ASA Paraíba) e pela Rede Feminismo e Agroecologia do Nordeste.

O lançamento será aberto ao público em geral e acontecerá em dois momentos no dia 21, pela manhã, à partir das 9h, com uma mesa de diálogo com as participações de Gilberta Soares, Secretária de Estado da Mulher e da Diversidade Humana, Jussara Costa, professora da Universidade Estadual da Paraíba e integrante do Grupo de Estudos de Gênero Flor e Flor e Glória Batista, da Coordenação Nacional da ASA Paraíba. Na ocasião, também será exibido o vídeo da campanha, que mostra o cotidiano de uma família camponesa que encontrou os caminhos para a divisão justa do trabalho doméstico e descobriu que com a colaboração de todos os integrantes da casa, sobra mais tempo para o lazer em família. Após mesa, haverá um debate e encerramento com os encaminhamentos acerca das ações da campanha no estado.


O segundo momento será à tarde, à partir das 14h, na Praça da Bandeira, quando haverá um ato público com a presença de mulheres rurais e urbanas vindas de Campina Grande e de outros municípios da região. Haverá uma encenação teatral com integrantes do Grupo de Teatro Amador do Polo da Borborema sobre o tema da campanha e serão distribuídos materiais de divulgação para dialogar com a sociedade.


A campanha surgiu como resultado do processo de construção coletiva da Pesquisa Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), Feminismo e Agroecologia, desenvolvido entre os anos de 2014 a 2017, que reuniu uma diversidade de mulheres de todos os estados do Nordeste. Como um dos frutos dessa pesquisa, surge a Rede Feminismo e Agroecologia.

A iniciativa tem o objetivo de mostrar a realidade e discutir os desafios e opressões comuns vivenciados pelas mulheres, sejam elas camponesas, das cidades, quilombolas, indígenas, estudantes, quebradeiras de coco, pescadoras, professoras.


A iniciativa pretende fazer uma denúncia acerca da sobrecarga de trabalho que as mulheres enfrentam e fazer o anúncio que o trabalho doméstico e de cuidados é algo que necessita ser tratado enquanto responsabilidades de homens e mulheres, apontando a necessidade de discutir com toda a sociedade sua origem, consequências na vida das mulheres, como também propondo uma mudança social: o compartilhamento das tarefas entre as pessoas que moram na mesma casa.

Assessora Técnica AP1MC acompanha Oficina de Educação Contextualizada em Salgado de São Felix, Agreste Paraibano

O Serviço Pastoral dos Migrantes do Nordeste (SPMNE), recebeu a visita da Sarah Vidal - assessora técnica da Associação Programa Um Milhão de Cisternas (AP1MC), durante os dias 12 e 13 de setembro de 2017. Com o objetivo de acompanhar o andamento do projeto Cisterna nas Escolas que está sendo desenvolvido em alguns munícipios paraibanos, ela acompanhou o módulo II da Oficina de Educação Contextualizada, no município de Salgado de São Félix/PB. O encontro foi realizado na Escola José Matias, na comunidade Dois Riachos, escola beneficiada com o programa, e foi conduzida pela monitora pedagógica do SPMNE Amélia Marques.


    
Ao falar sobre a importância de todo o programa, assim como do contexto ao qual está inserido e também da responsabilidade da instituição executora, a assessora ressalta: “É a segunda vez que tenho oportunidade de está aqui com o SPMNE, apesar do pouco contato, dá para perceber o comprometimento da equipe com o projeto com o programa Cisterna nas Escolas, e em especial, que é para além da questão das cisternas nas escolas, mas a questão da Convivência com o Semiárido”.  

Em relação aos momentos vividos na oficina: “Essa vivência que eu tive esses dois últimos dias acompanhando o segundo módulo da Oficina de Educação Contextualizada, no município de Salgado de São Félix, foi muito boa, o que o spm levou para discutir e para alargar a discussão da educação contextualizada, é super contemporâneo e vai de encontro com um novo projeto de sociedade que as organizações que fazem parte da asa acreditam e tentam construir da forma que é possível. Sobre a oficina em si, a metodologia super participativa, dentro dos princípios da construção do conhecimento, os temas levantados, as provocações realizadas, as problematizações todas foram muito pertinentes, aponta. 



Em relação aos educadores e educadoras presentes, evidencia: “de uma sensibilidade muito grande com o contexto local das suas comunidades, a discussão sobre gênero foi muito rica, e importante para eles e para gente, porque foi uma vivência onde as pessoas, especialmente as mulheres, puderam falar delas mesmas, do que sofreram, do que esse modelo patriarcal e machista faz com as mulheres, principalmente com as mulheres rurais. Então estou satisfeita, vou voltar para Recife muito feliz, de ter tido a oportunidade de participar desse evento”.


O PROJETO 
O Projeto Cisternas nas Escolas tem como objetivo levar água para as escolas rurais do Semiárido, utilizando a cisterna de 52 mil litros como tecnologia social para armazenamento da água de chuva. A chegada da água na escola tem um significado especial porque possibilita o pleno funcionamento deste espaço de aprendizado e convivência mesmo nos períodos mais secos.
O projeto abrange escolas dos nove estados do Semiárido (PE, PB, AL, SE, BA, CE, RN, PI e MG) que não têm acesso à água e que foram mapeadas pelo Governo Federal. Essa lista inclui as escolas localizadas em aldeias indígenas e comunidades quilombolas, que devem ser priorizadas nas ações do Cisternas nas Escolas.


Durante o processo de implementação, o programa prevê momentos de mobilização, formação, até a construção, dentre eles: Encontro com Comissões Municipais; Encontro Microrregional, com participação de gestor público e secretaria de educação e comissões municipais; Encontro de Comunidade Local, Encontros de Gerenciamento em Recursos Hídricos em Escolas (GRHE), com auxiliares, merendeiras e merendeiros, porteiras/os escolares, pais e representantes da comunidade; III Módulos de Oficina de Educação Contextualizada, com participação de professores, coordenadores/as pedagógico e diretores.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Em Natuba: Oficina de Educação Contextualizada

O Serviço Pastoral dos Migrantes do Nordeste (SPMNE), promoveu uma Oficina de Educação Contextualizada para a convivência com o Semiárido, no município de Natuba/PB, entre os dias 31 de agosto a 01 de setembro de 2017. A oficina faz parte do Projeto Cisternas nas Escolas que é financiado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário – MDSA e excetuado pelo SPMNE em parceria com a Articulação do Semiárido Brasileiro - ASA, e envolve três módulos com encontros de dois dias cada um. 

O objetivo da Oficina de Educação Contextualizada é abordar temas diversos com professores para a convivência com o semiárido, por exemplo como é a realidade das escolas do campo, quais os temas a serem trabalhados na educação contextualizada para a convivência com o semiárido, questões de gênero, conjuntura política, etc.

Nessa etapa do programa, além da interação do grupo, foram debatidos temas sobre a análise de conjuntura, contextualização do semiárido, os paradigmas (combate à seca x convivência com o semiárido), os fundamentos e princípios da Educação Contextualizada para a convivência com o semiárido, os aspectos legais que regem a educação do campo. 

O curso foi conduzido pelo Coordenador Pedagógico, Roberto Saraiva, e estiveram presentes cerca de 30 professores e professoras, com um bom envolvimento dos/as participantes, desenvolvido por meio de uma metodologia didática e participativa.


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Guardiões e guardiãs de sementes da Paraíba participam de Oficina de Contação de Histórias

Um encontro de gerações recheado de muita emoção, onde os sentimentos mais bonitos dentro de cada participante afloraram. Assim pode ser resumida a Oficina de Contação de Histórias, realizada pelo GT de Comunicação da Articulação do Semiárido Paraibano (ASA Paraíba), no dia 31 de outubro, em Esperança, no Agreste da Paraíba. Participaram do momento cerca de 20 guardiões e guardiãs de Sementes da Paixão, como ficaram conhecidas na Paraíba as sementes crioulas, cultivadas e preservadas pelas famílias agricultoras há várias gerações.


A oficina foi facilitada por Verônica Pragana, comunicadora da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA Brasil), Rejane Alves assessora pedagógica da ASA Paraíba e Maria Amélia Silva, educadora do Serviço Pastoral do Migrante (SPM). A proposta da oficina foi, à luz da chamada “Pedagogia Griô”, buscando uma conexão com suas ancestralidades e suas identidades, criando um ambiente que propiciasse vivenciar histórias de amor e de paixão pelas sementes, fazendo com que as pessoas olhassem para as suas próprias histórias com mais generosidade.

A atividade foi uma preparação para a 7ª Festa das Sementes da Paixão, que acontecerá entre os dias 5 e 7 de outubro de 2017, em Boqueirão-PB e tem como tema: “Fortalecendo a Resistência e Celebrando a Vida no Semiárido”. As histórias foram registradas em vídeos e, com a permissão dos participantes, serão divulgadas pelos canais de comunicação da Articulação do Semiárido na internet.

No início, em círculo, foi pedido a cada participante que escolhesse uma pessoa, alguém especial, da sua ancestralidade, a quem pedir a benção para começar o dia. “Quase todos nós temos uma índia ancestral que foi pegada no mato. Vamos buscar essa índia, trazê-la para este momento”, disse Rejane Alves. “Que essa nossa busca não seja a de captura, mas a do reencontro”, complementou Maria Amélia. Ao lembrar das pessoas que contribuíram e de sua própria caminhada até ali, muitos guardiões e guardiãs foram às lágrimas. Dona Maria Isabel do Livramento Rocha dos Santos, do Sítio Pedra Grande, em Solânea-PB, foi uma delas: “Não tive a oportunidade de estudar, minha família era muito humilde. Mas hoje através desse trabalho, com o sindicato, com a minha comunidade, graças a Deus, hoje eu me sinto uma professora”, disse.


Após esse momento inicial, sentadas de maneira confortável e em círculo, as pessoas foram convidadas a fechar os olhos, respirar bem fundo e visitar dentro de si, aquelas histórias mais marcantes sobre as sementes em suas memórias: “As nossas histórias são sementes, quando elas germinam, ou seja, quando saem da nossa boca, elas tem o poder de tocar as outras pessoas e de fazerem elas refletirem sobre as suas próprias vidas. Nós fazemos um convite aqui para que a gente possa agora acessar essas histórias dentro de nós”, convidou Verônica Pragana.

Um dos primeiros a se sentir a vontade para falar foi o guardião mais idoso entre os presentes, Cassimiro Caetano Soares, o seu “Dodó”, de 80 anos, morador do Sítio Monteiro, município de Cacimbas-PB. Ele foi o criador da expressão “Sementes da Paixão”: “A semente é uma coisa que a gente tem paixão. É igual a casar com uma moça, você não casa se não tiver amor por ela. E você só tem paixão por ela porque ela é boa, que veio do seu avô, você conhece e sabe que ela é adaptada”.


Sara Maria Constâncio, do Assentamento São Domingos, município de Cubati, se emociona ao lembrar da paixão que um tio querido, Geraldo, tinha por suas sementes. Tanto que antes de morrer, lhe passou as sementes de gado e de feijão, porque sabia que ela iria cuidar e continuar multiplicando.

“Eu sou guardião da semente da fava orelha de vó. Foi uma história desde criança, meu pai dizia que cada pé de feijão que a gente arrancava, era uma lição que a gente aprendia. Essa semente foi da minha avó, ela estaria com quase 200 anos e já dizia que era da avó dela, imagina quantos anos não tem essa semente?”, se pergunta seu Joaquim Santana, do Sítio Montadas de Baixo, município de Montadas-PB.

A participante mais nova da oficina era Maria Aparecida Barbosa, de 12 anos, do Sítio Piabas, em Aroeiras-PB, mesmo muito nova, a jovem já pensa em levar adiante os ensinamentos em torno das sementes: “minha família sempre guardou sementes. Desde muito pequena eu já ia para o roçado, meu pai fazia o buraco e eu colocava a semente. Hoje trabalho com minha mãe na feira agroecológica e quero quando crescer, passar tudo isso para os meus filhos”, planeja.

Ao final do encontro, cada participante escolheu uma semente e a dedicou a uma pessoa presente, como símbolo do que foi plantado com a oficina.

Pedagogia Griô

Pedagogia Griô é uma pedagogia facilitadora de rituais de vínculo e aprendizagem entre as idades, entre a escola e a comunidade, entre grupos étnico-raciais, saberes ancestrais de tradição oral e as ciências e tecnologias universais. Trabalha por meio de um método de encantamento, vivencial, dialógico e partilhado para a elaboração do conhecimento e de um projeto de comunidade/humanidade que tem como foco a expressão da identidade, o vínculo com a ancestralidade e a celebração da vida, segundo a descrição de Lilian Pacheco, criadora da metodologia.

Governo Temer ameaça chamar de volta o Brasil para o Mapa da Fome

No Semiárido, a sociedade civil e a democracia venceram a fome e a sede, transformando-a numa região produtora de alimentos.


SÉRIE NENHUM DIREITO A MENOS | Há quase 2 anos, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) anunciou em Roma um feito de imensa repercussão social no Brasil: a saída do país do Mapa da Fome. Segundo a ONU, no intervalo de 2002 a 2013, a cada 100 pessoas subalimentadas, 82 delas passaram a acessar alimentos para saciar sua fome. Assim, o percentual de brasileiros e brasileiras em situação de subalimentação foi para menos de 5% da população do país.

Para além dos números, essa situação é bem visível na região semiárida brasileira, que representa 18,2% do território nacional e concentrava, em 2011, 50% das pessoas em situação de miséria mapeadas pelo programa Brasil Sem Miséria do governo Dilma Rousseff. Hoje, muitas famílias da região conjugam num passado não muito distante a expressão passar fome. Um tempo que eles demarcam não pelos anos ou décadas, mas pelas gestões dos governantes à frente do país.



“Antes do governo Lula e Dilma, havia muitos saques no Mercantil [mercado da região]. Era muito difícil conseguir alimento. Tinha que ir pras frentes de serviço em troca de um saco de feijão que nem cozinhava”, conta dona Antônia Valdira Coelho, que vive no assentamento Menino Jesus, situado nos municípios de Chorozinho e Cascavel, na região metropolitana de Fortaleza já na parte semiárida do Ceará. “Antes, era uma raridade comer carne. Hoje, comemos bem. Estamos no céu”, enfatiza ela.

A vizinha de dona Valdira, Maria da Glória Santos da Silva, nem dá cabimento para relembrar o período da fome. A sua boca só anuncia os alimentos produzidos no seu quintal: “Acerola, manga, caju, seriguela, ata, banana, limão, graviola, mexerica, cheiro verde, pimentão, alface, tomate, pimentão”. E ainda tem as criações de porco e galinha. “O que nos salva é que a gente tá podendo plantar mesmo com cinco anos sem chuva, porque se fosse comprar não daria por causa da inflação. A gente está aprendendo a plantar e tirar produção a partir dos conhecimentos que os técnicos do Cetra e do Esplar dão”, diz ela fazendo referência às organizações da sociedade civil que fazem parte da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA).

Seu Expedito Jacobina, da comunidade Água Suja, na zona rural de Jacobina do Piauí, também não dá muito espaço para falar dos tempos tristes da fome. Desde 2013, ele armazena a água de produção da cisterna-calçadão. Nestes últimos três anos, inseridos num período de forte estiagem, ele passou a produzir macaxeira, batata e mamão sem parar. “A manga e a pinha tá florindo”, orgulha-se ele, que também cria ovino, abelha e galinha. A carne para consumo da família, ele não compra. “Quanto mais a gente puder produzir para consumo, a gente já está no lucro. Vai comprar um pacote de arroz... é R$ 6,00. Pra muitas pessoas é complicado”, diz ele que além de trabalhar na roça é funcionário de uma escola pública municipal.


“No início da década de 1980, havia no Semiárido um quadro de fome, de crianças morrendo. No início da década de 1990, [existiam] situações críticas pela não garantia do direito à água. A região passou por uma mudança radical dos anos 2000 pra cá, com a participação ativa da sociedade, organizada na ASA, e com políticas que garantiram direitos. A sociedade civil e a democracia venceram a fome e a sede no Semiárido. Uma região tida como uma região de fome e miséria passou a ser uma região produtora de alimentos em vários territórios. Não podemos retroceder”, assegura Denis Monteiro, secretário executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).
Um viés da estratégia de combate à fome construída desde o governo Lula e mantida nas gestões de Dilma foi estimular a produção de alimentos pela população vulnerável que vive na zona rural do país. Segundo o Relatório de Insegurança Alimentar no Mundo, publicado pela FAO em 2014, o fomento à produção agrícola articulado com as políticas de proteção social foram fundamentais para a saída do Brasil do Mapa da Fome. Essa estratégia foi sustentada pela priorização da agenda de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) a partir de 2003 pelos governos federais e por mecanismos de participação da sociedade civil nas políticas públicas que convergiam para esse resultado, como a política de convivência com o Semiárido.

E o que dizer agora desta estratégia diante de um governo que não visa a proteção social da população mais vulnerável e anuncia constantes medidas que ferem direitos já conquistados?

“Nós estamos vivendo, em grande medida, momento de um estado de exceção. Infelizmente, não temos como dizer que temos políticas asseguradas. O governo Temer já demonstrou que ele é capaz de desconstruir direitos mesmo aqueles que estão assegurados na Constituição de 1988. O risco de retrocesso é enorme. Agora, nos últimos anos, não foram criados não só leis, mas também espaços que a sociedade teve oportunidade de participar ativamente para construir estas políticas. O Consea [Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional], um exemplo neste sentido, foi recriado pelo governo Lula e tem um papel importantíssimo na construção de leis promotoras do direito humano à alimentação e na construção de políticas públicas, como por exemplo, as políticas voltadas para o Semiárido. É um espaço que continua vigente. Esperamos que este espaço continue tendo um protagonismo com a participação ativa da sociedade civil na cobrança e na defesa dos direitos e das obrigações do estado”, adverte Denis.

Conselheira do Consea, Elza Braga, diz que para enfrentar a fome é preciso enfrentar a pobreza, que é um quadro dotado de complexidade. “Pra melhorar os indicadores da segurança alimentar tem que ter uma conjugação de ações, não só a água, mas o PAA [Programa de Aquisição de Alimentos], o Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar], a economia solidária, toda política voltada para os assentamentos, educação alimentar, é uma série de medidas além das políticas de aumento de renda – bolsa família e aumento do salário mínimo”, assegura ela que também é professora da Universidade Federal do Ceará.


Segundo a professora, a tática do governo Temer para negar direitos não se concretizará só através da redução de recursos, mas através da alteração na metodologia de algumas políticas para “subtrair o protagonismo e a participação da sociedade civil. Porque fica mais fácil retomar as relações clientelistas que perpassam as relações políticas no Brasil, especialmente, no Nordeste e Norte. É um cenário muito preocupante”, dispara Elza.
O que a conselheira do Consea prevê já acontece no Semiárido quando o governo Temer envia os recursos, que deveriam ser investidos na região, para a Codevasf, o DNOCS, governos estaduais. “[Essa opção] nada mais é do que voltar a ideia de injetar os recursos onde tem os apadrinhados políticos”, diz Alexandre Pires, coordenador executivo da ASA Brasil pelo estado de Pernambuco e coordenador do Centro Sabiá, referindo-se aos R$ 700 milhões direcionados para o DNOCS.
Segundo ele, quando os governos Lula e Dilma decidiram dialogar com a sociedade civil, por meio da ASA, para pensar numa forma participativa de construir o projeto de convivência com o Semiárido, tirou das mãos de vereadores, prefeitos e governadores a barganha política e isso fortaleceu a sociedade civil na participação de construção de um projeto político para o Semiárido.

“O que nós construímos ao longo dos anos, no âmbito da participação da sociedade civil, na construção deste projeto de convivência com o Semiárido, o foco estava na necessidade das famílias e não no interesse político-eleitoral, que compromete a eficiência e a eficácia de qualquer iniciativa de promoção da segurança alimentar e a melhoria de suas condições de vida”, assegura Alexandre.
Para a professora Elza, é lastimável que exista uma ameaça de ruptura do governo Temer com a ASA. “A Articulação fez um trabalho muito bom porque incidiu não só na política da água, mas também de produção de alimentos, de incentivo aos quintais produtivos, às feiras, à agroecologia. A gente sabe que falar de segurança alimentar e nutricional é falar de alimentação saudável. E a ASA fez esse meio de campo de articular essas políticas e incentivar o associativismo, que é fundamental para que as populações vulneráveis tenham políticas que atendam às necessidades das famílias. Construir um país democrático passa, necessariamente, pela afirmação de direitos que as populações têm. E a gente quer um país forte, democrático e soberano.”

ASA Paraíba discute Campanha pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico

O trabalho doméstico e de cuidados é algo que necessita ser tratado enquanto responsabilidades de homens e mulheres, apontando a necessidade de discutir com toda a sociedade sua origem e consequências na vida das mulheres.
Direitos são para mulheres e homens, responsabilidades também!
Qual é o lugar da casa onde você passa a maior parte do seu tempo? 
Como funciona a divisão de tarefas domésticas dentro da sua casa? 
Estas e outras perguntas foram feitas para estimular o debate dentro da reunião da coordenação ampliada da Articulação do Semiárido Paraibano (ASA Paraíba), realizada em Campina Grande-PB. 
Serão realizados lançamentos regionais da campanha e atividades de formação em todos os territórios onde a ASA Paraíba está organizada. 
O lançamento estadual da Campanha pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico está previsto para o dia 21 de setembro, também em Campina Grande.


Programa Cisternas ganha prêmio como uma das políticas públicas mais relevantes no combate à desertificação


O Programa Cisternas, uma política pública de acesso à água que possibilita às famílias rurais do Semiárido brasileiro viver na região, foi considerada a segunda iniciativa mais importante do mundo no combate à desertificação. O reconhecimento vem do Prêmio Política para o Futuro 2017, o único que homenageia políticas em vez de pessoas a nível internacional. A divulgação do Prêmio Prata para a política brasileira foi anunciada hoje (22). A cerimônia de entrega da premiação será em 11 de setembro, durante a 13º Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas, em Ordos, na China. 


O prêmio, uma iniciativa do World Future Council que, este ano, teve a parceria da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD), atesta a efetividade das ações de convivência com o Semiárido como uma política pública com potencial para reverter a degradação do solo, que impossibilita a produção de alimentos, abandono das regiões afetadas pela sua população, fome e miséria. A desertificação afeta 58% da área do Semiárido, onde vivem 11,8% brasileiros e brasileiras, muitos deles em situação de pobreza ou extrema pobreza.

Característica marcante e diferenciada do Programa Cisternas é ter nascido no seio das experiências da sociedade civil, proposta como política pública de convivência com a região pelas organizações atuantes no Semiárido através da Articulação Semiárido (ASA) e assumida pelas gestões de Fernando Henrique, Lula, Dilma e, atualmente, Michel Temer, tornando-se, na prática, uma política de Estado.

Valquíria Lima, da coordenação executiva da ASA pelo estado de Minas Gerais, destaca que o Programa Cisternas é resultado de uma solução encontrada pelas próprias famílias rurais do Semiárido para terem água. Essa solução foi potencializada pelas organizações de apoio à agricultura familiar que atuam no Semiárido e formam a ASA.

“Um dos grandes méritos da sociedade civil foi construir uma organização política e administrativa para executar esta política pública, comprovando que a sociedade civil organizada além de propor, mobilizar, pode executar políticas públicas adequadas. No nosso processo metodológico, as famílias são protagonistas. Elas se envolvem no processo de mobilização da comunidade, na construção da tecnologia, nos processos formativos”, afirma Valquíria.

Para ela, a transparência e eficiência que a ASA gerenciou os recursos públicos também contribuem para que o Programa Cisternas seja referência mundial. “A ASA criou toda uma estrutura para fazer a gestão de forma muito transparente e isso também surtiu um efeito positivo. Foi através da transparência, com nosso sistema integrado de gastos, com nossas tecnologias todas georreferenciadas, que comprovamos, de fato, que os recursos chegam na base. E isso nos respaldou para executar, ao longo destes anos, um orçamento significativo para a sociedade civil de mais de R$ 2 bilhões”.

A parceria entre Estado e sociedade civil foi um dos elementos determinantes para essa avaliação da política pública brasileira, como atesta o texto de divulgação da premiação: “Graças a um movimento social, o Brasil introduziu o Programa Cisternas para apoiar a meta de instalação de um milhão de cisternas de coleta de água da chuva para uso doméstico de milhões de pessoas que residem em áreas rurais no Semiárido. O objetivo da instalação de um milhão de cisternas foi alcançado em 2014. Também há 250 mil tecnologias de água produtiva e milhares de cisternas construídas para escolas. Agora, muito menos pessoas deixam a região devido à seca e, apesar de, desde 2012, a região ter experimentado uma das piores secas já registradas, relatórios indicam que não há incidência dos piores efeitos da seca - mortalidade infantil, fome, migração em massa - que costumava ser generalizada no Semiárido”.

Vidas transformadas - No Sertão do Araripe, em Pernambuco, a história de seu Luiz Pereira Caldas, 58 anos, e a esposa Nilza de Oliveira Caldas, 60, é emblemática quanto ao movimento inverso de migração que passou a ocorrer na região depois das políticas públicas de convivência com o Semiárido. Após duas décadas em São Paulo, eles voltaram para sua cidade natal, no município de Granito. Um dos principais motivos do retorno foram as condições favoráveis à prática da agricultura trazidas com a instalação do barreiro-trincheira na propriedade de sua mãe. Este tipo de barreiro é escavado no solo para acumular, no mínimo, 500 mil litros de água da chuva. Por ser estreito e fundo, o espelho d´água em contato com a ação do vento e do sol é pequeno, o que diminui a evaporação do líquido.

Com a água e manejo adequado do solo, as famílias agricultoras plantam de tudo, inclusive, produzem mudas de plantas nativas para preservação da Caatinga e do Cerrado, biomas que ocorrem na região semiárida, e que estão bastante degradados pelas ações do homem para criação de gado, expansão de monocultivos e extração de madeira.
“Quando comprei esse pedaço de terra não tinha nenhuma árvore plantada. Nem uma vara pra fazer um espeto pra assar um pedaço de carne, então eu plantei umburana, sabiá, catingueira, craibera e outras árvores. No meio delas planto palma e hoje coloco minhas colmeias”, conta o agricultor Francisco de Assis da Silva, popular Preguinho, da comunidade São Luiz, do município de Maravilha, em Alagoas. Ele tem alcançado bons resultados ao trabalhar com a agroecologia, como a reversão da infertilidade do solo. Essa prática tem contribuído para produção mesmo em épocas de estiagem. O agricultor pratica técnicas de uso sustentável do solo como cobertura morta, defensivos naturais, período de pousio, rotação de culturas, diversidade produtiva entre outras. “Se eu usasse veneno contaminava a terra, os alimentos, minha saúde e as abelhas não iriam produzir mel de qualidade”. Além do cultivo de espécies nativas, forragem e hortaliças, Seu Francisco também cria aves, ovinos e desenvolve a atividade de apicultura.

Desertificação – Segundo a UNCCD, as terras secas cobrem 40% da superfície da Terra, onde ocorrem os climas árido, semiárido e subúmido seco da Terra. Evidências do processo de desertificação estão presentes em quase todas as partes do Semiárido e, em alguns locais, são tão marcantes que foram rotuladas de núcleos de desertificação: Seridó (RN/ PB), Cariris Velhos (PB), Inhamuns (CE), Gilbués (PI), Sertão Central (PE), Sertão do São Francisco (BA).